Encontrar uma alteração em um exame significa, necessariamente, descobrir uma doença?

Diego Velázquez
7 Min de leitura
Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues

Receber o resultado de um exame de imagem e encontrar a descrição de uma alteração costuma gerar preocupação imediata. Para muitas pessoas, qualquer termo diferente no laudo é interpretado como sinônimo de doença grave. No entanto, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico radiologista e ex-secretário de Saúde, explica que a medicina moderna mostra que essa associação nem sempre é verdadeira. Com a evolução dos equipamentos de imagem, tornou-se possível visualizar estruturas com níveis de detalhe nunca antes alcançados, revelando pequenas alterações que, na maioria das vezes, não representam uma doença nem exigem tratamento. Esses achados são conhecidos como achados incidentais e fazem parte da rotina dos radiologistas.

Um dos maiores desafios do diagnóstico por imagem atualmente não é apenas identificar alterações, mas interpretar corretamente seu significado clínico. Quanto mais sensíveis se tornam os exames, maior é a capacidade de detectar pequenas variações anatômicas ou alterações benignas. O verdadeiro papel do radiologista é distinguir aquilo que representa um risco real daquilo que faz parte da diversidade biológica do organismo humano, evitando tanto diagnósticos tardios quanto preocupações e procedimentos desnecessários.

O avanço tecnológico aumentou a quantidade de informações disponíveis

Nas últimas décadas, mamografias digitais, tomossíntese, ressonâncias magnéticas de alta resolução e outros métodos diagnósticos passaram a produzir imagens extremamente detalhadas. Essa evolução trouxe benefícios importantes para o diagnóstico precoce, mas também aumentou significativamente a identificação de alterações que anteriormente passavam despercebidas.

Muitas dessas alterações correspondem a pequenas calcificações benignas, cistos, áreas de fibrose, assimetrias sem significado patológico ou características anatômicas próprias de cada paciente. Em outras palavras, detectar uma alteração não significa, automaticamente, identificar uma doença. Segundo o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a qualidade de um exame não depende apenas da capacidade de encontrar alterações, mas principalmente da capacidade de interpretar quais delas realmente possuem relevância clínica.

O que são os chamados achados incidentais?

Na medicina, um achado incidental é qualquer alteração identificada durante um exame realizado por outro motivo e que não apresenta relação direta com a suspeita clínica inicial. Em muitos casos, esses achados são completamente benignos e jamais provocariam sintomas ao longo da vida da paciente.

Na mama, por exemplo, é relativamente comum identificar pequenos cistos simples, linfonodos intramamários, áreas de gordura ou alterações decorrentes do envelhecimento natural dos tecidos. Essas estruturas fazem parte da variabilidade normal do organismo e, quando corretamente caracterizadas, não representam câncer nem aumentam o risco de desenvolvê-lo. O desafio está em reconhecer quando um achado pode ser apenas uma característica anatômica e quando merece investigação adicional.

É justamente por isso que existe o BI-RADS

Para reduzir interpretações subjetivas e padronizar a comunicação entre os profissionais, foi criado o Breast Imaging Reporting and Data System (BI-RADS), sistema desenvolvido pelo American College of Radiology. Ele estabelece critérios objetivos para classificar os achados observados nos exames de mama conforme a probabilidade de malignidade.

Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues
Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues

Essa classificação evita que alterações benignas sejam tratadas como suspeitas de câncer e, ao mesmo tempo, garante que lesões realmente preocupantes recebam investigação adequada. O BI-RADS considera aspectos como formato, margens, distribuição das calcificações, densidade, estabilidade ao longo do tempo e diversos outros critérios técnicos. Para o Dr. Vinicius Rodrigues, a padronização promovida pelo BI-RADS foi um dos maiores avanços da radiologia mamária, porque permite transformar informações complexas em decisões clínicas mais seguras e consistentes.

A história clínica é tão importante quanto a imagem

Um exame de imagem nunca deve ser interpretado de forma isolada. Idade da paciente, histórico familiar, sintomas, cirurgias anteriores, uso de medicamentos, exames antigos e fatores de risco fazem parte da análise realizada pelo radiologista e influenciam diretamente a interpretação dos achados.

Uma mesma alteração pode ter significados completamente diferentes, dependendo do contexto clínico. Um pequeno nódulo estável durante vários anos, por exemplo, geralmente possui comportamento diferente de uma lesão recém-identificada com características suspeitas. Conforme explica o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o diagnóstico por imagem não consiste apenas em observar estruturas, mas em integrar as informações obtidas pelo exame com toda a história clínica da paciente para construir uma conclusão confiável e individualizada.

Investigar tudo também pode causar prejuízos

À primeira vista, pode parecer que investigar qualquer alteração encontrada seja sempre a decisão mais segura. Entretanto, a medicina baseada em evidências demonstra que exames complementares desnecessários podem aumentar custos, gerar ansiedade, provocar procedimentos invasivos e expor pacientes a riscos que poderiam ser evitados.

Por esse motivo, diretrizes internacionais recomendam que apenas alterações com potencial impacto clínico sejam acompanhadas ou investigadas. Esse princípio faz parte da chamada saúde baseada em valor, que busca oferecer o cuidado certo, para a pessoa certa, no momento adequado. O objetivo não é realizar menos exames, mas indicar apenas aqueles que realmente contribuem para melhorar os desfechos clínicos.

O maior desafio da radiologia não é encontrar alterações, mas interpretar seu significado

Os avanços tecnológicos continuarão tornando os exames cada vez mais sensíveis, produzindo imagens com resolução superior e revelando detalhes que antes eram invisíveis. Isso significa que o número de achados incidentais tende a aumentar nos próximos anos. Diante desse cenário, a experiência do radiologista torna-se ainda mais importante para separar alterações sem importância clínica daquelas que realmente exigem atenção.

Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o verdadeiro valor do diagnóstico por imagem está na capacidade de transformar informação em conhecimento clínico. Encontrar uma alteração é apenas o primeiro passo; o mais importante é compreender seu significado biológico, evitar intervenções desnecessárias e garantir que cada paciente receba exatamente a conduta indicada pelas melhores evidências científicas.

Na medicina moderna, tecnologia e precisão caminham juntas. Quanto melhores se tornam os exames, maior é a responsabilidade de interpretar seus resultados com equilíbrio, rigor científico e visão clínica. Afinal, nem toda alteração representa uma doença, e compreender essa diferença é uma das maiores contribuições da radiologia para um cuidado mais seguro, eficiente e personalizado.

Compartilhe este artigo