Ilha Comprida vive nova crise política com a cassação da prefeita Maristela Cardona

Diego Velázquez
6 Min de leitura

Ilha Comprida voltou a enfrentar uma turbulência institucional em maio deste ano, quando a Câmara Municipal decidiu cassar o mandato da prefeita Maristela Osório de Marques Cardona. A decisão, tomada por sete votos a favor e dois contrários, encerrou um processo de investigação que se arrastava havia meses e culminou na posse imediata do vice-prefeito Rogério Lopes Revitti como novo chefe do Executivo municipal, ainda na noite do julgamento.

Uma investigação de quase três meses

O processo que resultou na cassação teve origem em uma Comissão de Investigação e Processante, conhecida pela sigla CIP, aberta oficialmente em fevereiro deste ano depois que a Câmara aprovou a admissibilidade da denúncia contra a prefeita. Ao longo de cerca de 90 dias, o colegiado de vereadores reuniu documentos, ouviu testemunhas e analisou uma série de supostas irregularidades administrativas apontadas em relatórios internos da própria Casa Legislativa. A sessão de julgamento final se estendeu por três dias, entre terça-feira e quinta-feira, e envolveu a leitura de milhares de páginas de processo antes da votação decisiva.

Tapa-buracos que não existiu e uma motoniveladora sem contrato

Entre os principais pontos que motivaram a cassação está o pagamento de aproximadamente 139 mil reais a uma empresa contratada para realizar serviços de tapa-buracos que, de acordo com documentos e depoimentos analisados pelos parlamentares, não teriam sido efetivamente executados. Os vereadores também investigaram a cessão de uma motoniveladora pertencente à Prefeitura a uma empresa particular sem contrato formal ou autorização legal para o empréstimo do equipamento. Some-se a isso o questionamento sobre despesas ligadas ao evento Ilha Verão 2026, um dos principais eventos do calendário turístico da cidade, que teriam sido realizadas sem previsão orçamentária e sem a devida cobertura legal.

A defesa, a resistência judicial e o desfecho na Câmara

Durante a tramitação do processo, a defesa da prefeita chegou a recorrer à Justiça em mais de uma ocasião na tentativa de suspender a sessão de julgamento, mas os pedidos foram negados tanto em primeira quanto em segunda instância. Na sessão final, a defesa teve cerca de duas horas para se manifestar perante os vereadores antes da votação que selou o afastamento definitivo. Ao final do julgamento, o presidente da Câmara Municipal decretou a vacância do cargo de prefeita e promulgou o decreto legislativo que formalizou a cassação.

Rogério Revitti assume o Executivo

Com a cassação confirmada, coube ao vice-prefeito Rogério Lopes Revitti assumir imediatamente o comando da cidade. A cerimônia de posse ocorreu na própria noite da decisão, na Câmara Municipal, em sessão solene aberta à população e transmitida ao vivo pelas redes sociais do Legislativo. Antes de ocupar a vice-prefeitura, Revitti já havia atuado como vereador no município, período em que ficou conhecido por posições independentes em relação à gestão anterior, inclusive em debates sobre projetos de verticalização e ocupação do solo na cidade.

Reações após o julgamento

A ex-prefeita se manifestou publicamente nas redes sociais logo após a votação, afirmando que seguiria de cabeça erguida e questionando as provas apresentadas contra sua gestão. Já o Conselho de Desenvolvimento Intermunicipal do Vale do Ribeira e Litoral Sul divulgou uma nota de solidariedade institucional destacando a trajetória da ex-gestora à frente do município. O episódio dividiu opiniões entre moradores e lideranças da região, em um debate que deve seguir repercutindo nas próximas semanas.

Um padrão de instabilidade no comando da cidade

Chama atenção o fato de este não ter sido o primeiro caso de cassação de prefeito em Ilha Comprida nos últimos anos. Em julho de 2024, o então prefeito Geraldino Júnior também teve o mandato cassado pela Câmara Municipal, em uma votação igualmente decidida por sete votos a favor e dois contrários, após ser acusado de não responder a dezenas de requerimentos de informação enviados pelos vereadores. Na ocasião, quem assumiu o cargo foi a então vice-prefeita, justamente Maristela Cardona, que agora também deixou o Executivo pela mesma via. A repetição do cenário reacende o debate sobre a estabilidade institucional do município e sobre os mecanismos de fiscalização entre Executivo e Legislativo na cidade.

O que muda na gestão municipal

Com a posse de Rogério Revitti, a Prefeitura de Ilha Comprida segue publicando normalmente atos administrativos, leis municipais e portarias assinadas pelo novo chefe do Executivo, conforme registrado no Diário Oficial Eletrônico do município nas semanas seguintes à mudança de comando. A expectativa entre moradores e comerciantes locais é que a nova gestão dê continuidade aos projetos em andamento, como a requalificação de espaços públicos e a organização do calendário de eventos turísticos, ao mesmo tempo em que enfrenta o desafio de reconstruir a confiança institucional após dois episódios de cassação em pouco mais de dois anos.

Fontes consultadas:

Compartilhe este artigo