O mercado de distressed assets e a lógica do investimento contracíclico

Diego Velázquez
6 Min de leitura
Felipe Rassi

Poucos setores refletem tão bem quanto o de distressed assets a lógica do investimento contracíclico: comprar quando o pessimismo domina e colher resultados quando o ciclo se normaliza. Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro, estuda essa dinâmica e reconhece nela um dos fundamentos econômicos mais sólidos do segmento de ativos estressados. Enquanto a maioria dos investidores foge de empresas em crise, créditos inadimplentes e ativos sob disputa, o capital especializado enxerga nesses mesmos ativos a matéria-prima de retornos diferenciados, desde que a análise seja rigorosa e o preço de entrada reflita adequadamente os riscos.

A história dos mercados financeiros oferece exemplos recorrentes dessa dinâmica. Crises bancárias, recessões e choques setoriais sempre produziram ondas de ativos deteriorados que, adquiridos com deságios profundos por investidores capitalizados e pacientes, geraram retornos expressivos na fase de recuperação do ciclo. O mercado americano de distressed debt das décadas de 1980 e 1990 consolidou as bases técnicas dessa indústria, que posteriormente se expandiu para a Europa e, mais recentemente, para mercados emergentes como o Brasil.

O que caracteriza um ativo como distressed?

A classificação de um ativo como distressed deriva da combinação entre deterioração fundamental e precificação descontada. Títulos de dívida negociados com deságios severos em relação ao valor de face, participações em empresas à beira da insolvência, imóveis vinculados a litígios e créditos em processos falimentares compõem o universo típico. Segundo a interpretação de Felipe Rassi, o elemento comum é a existência de uma barreira, jurídica, operacional ou informacional, que afasta o investidor convencional e cria a oportunidade para o capital especializado capaz de superá-la.

Essa barreira é, paradoxalmente, a fonte do retorno. Se qualquer investidor pudesse avaliar e adquirir o ativo com facilidade, a competição eliminaria o deságio. A complexidade jurídica de uma execução, a dificuldade de avaliar uma empresa sem demonstrações auditadas ou a necessidade de conduzir uma reestruturação operacional funcionam como filtros que limitam o universo de compradores e preservam a assimetria de preço que remunera a expertise.

Estratégias ativas e passivas no investimento em ativos estressados

O investimento em distressed assets comporta abordagens distintas. Na estratégia passiva, o investidor adquire o ativo descontado e aguarda a resolução natural do evento de estresse, seja o desfecho de um processo judicial, seja a recuperação do setor. Na estratégia ativa, o investidor intervém diretamente no destino do ativo: assume o controle da empresa em crise, lidera a negociação do plano de reestruturação ou conduz pessoalmente a execução das garantias. Felipe Rassi elucida que a escolha entre as abordagens depende do mandato do veículo de investimento, da expertise da equipe e do tamanho da posição em relação ao total do ativo.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

A estratégia conhecida como loan-to-own ilustra o grau de sofisticação que o segmento alcançou. Nela, o investidor adquire dívida da empresa em crise com o objetivo deliberado de convertê-la em participação acionária durante a reestruturação, assumindo o controle do negócio por uma fração do valor que pagaria em uma aquisição convencional. Operações dessa natureza exigem domínio simultâneo de finanças corporativas, direito da insolvência e gestão operacional.

Por que o Brasil se tornou destino relevante para o capital de distressed?

O Brasil reúne condições estruturais que atraem o capital especializado em ativos estressados: volume expressivo de crédito inadimplente, ciclos econômicos voláteis, sistema judicial que cria complexidade recuperável por quem o domina e mercado de capitais em desenvolvimento, com menos competidores qualificados do que os mercados maduros. Na leitura de Felipe Rassi, a reforma da Lei de Recuperação Judicial em 2020 aumentou a previsibilidade dos processos de insolvência e fortaleceu instrumentos como o financiamento DIP, tornando o ambiente mais funcional para investidores estrangeiros e locais.

A entrada de gestores internacionais nos últimos anos confirma essa percepção. Casas globais especializadas em situações especiais estabeleceram operações locais ou firmaram parcerias com gestores brasileiros, trazendo capital, metodologia e padrões de governança. O movimento eleva a competição pelos ativos de maior qualidade, mas também aprofunda o mercado e acelera sua institucionalização.

Disciplina de preço: o fundamento que sustenta o retorno

Toda a lógica do investimento contracíclico repousa sobre a disciplina de preço. O ativo estressado não é bom investimento em qualquer condição; é bom investimento ao preço certo. Felipe Rassi reforça que a tentação de flexibilizar premissas para vencer disputas competitivas é o erro mais custoso do segmento, pois o deságio de entrada é a principal margem de segurança contra os imprevistos inerentes a ativos complexos. A paciência para esperar a oportunidade adequada distingue os gestores consistentes daqueles que apenas surfam ciclos favoráveis.

O investidor de distressed bem-sucedido combina três atributos raros: capacidade analítica para precificar complexidade, estrutura jurídica e operacional para executar a tese e temperamento para agir contra o consenso. O mercado brasileiro, com sua profundidade crescente e suas ineficiências persistentes, continuará oferecendo campo fértil para quem reúne essas qualidades.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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